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“O Brasil é um País criativo e inovador por excelência. Para citar apenas um exemplo, é genuinamente nossa, exclusiva, a utilização do cheque como título de crédito, denominado cheque “pós-datado”. Outro indicador dessa criatividade é a grande quantidade de startups, e que continua crescendo a cada ano. Entretanto, muitas dessas startups, e mesmo as empresas convencionais, não conseguem sobreviver por mais 5 anos, segundo o SEBRAE. O que falta, então, às nossas empresas? Esta interessante abordagem sobre inovação confirma que, apenas implementar novas ideias, não é suficiente para levar as organizações ao sucesso. E mais que isto, apresenta algumas diretrizes que a Consulus implementa com seus clientes, para gerar inovação a partir de um ponto de vista relacional.” – Carlos Xavier, Consultor Sênior in Brasil.

Sem transformar líderes e redesenhar abordagens internas, uma organização não pode lucrar com inovação.

Nas águas brilhantes do lago Inle, cercado por montanhas cênicas, nossos barcos aceleraram através do vasto corpo de água, com o rugido de motores a diesel. Estávamos passando alguns dias em Inle, como parte de um projeto de pesquisa de três meses em Myanmar, para um grupo de hotelaria. Como outros lugares que visitamos, há sempre algo a descobrir.

Nossos barcos logo desaceleraram, e paramos em uma casa ampla, onde vimos algo extraordinário. Uma mulher corta o caule de uma planta de lótus. Ao separar as partes, surgem finos fios. A partir desses fios, as mulheres – conhecidas como tecelãs de lótus – criam belas roupas e acessórios. Se você acha isso interessante, espere pela história.

Há cerca de um século atrás, uma mulher chamada Paw Sar Ou queria ofertar um manto especial para o Abbott, no templo budista onde ela orava. Em seu desejo de fazer algo especial, ela descobriu esse processo de obtenção de fios da planta de lótus, um venerado símbolo do budismo. A partir dessa primeira túnica, toda uma nova indústria surgiu, e a humilde planta de lótus, mais que um símbolo, passou a ser uma fonte de sustento para o povo de Inle.

A história de Paw Sar Ou é uma dentre tantas, com as quais estamos familiarizados em nosso trabalho. Elas nos permitem compreender por que há empresas de sucesso em inovação, enquanto outras falham lamentavelmente.

Nossa conclusão: As empresas são bem-sucedidas em inovação, não simplesmente por causa de uma nova ideia, ou porque pensam de forma diferente. São exitosas porque são mais habilidosas em aproveitar seus pontos fortes, e em tomar decisões a partir de um ponto de vista relacional. A isso, chamamos abordagem de dentro para fora.

Há três aspectos-chave nesta abordagem:
Primeiro, identifique um propósito significativo, então construa um modelo organizacional que permita a unidade. Finalmente, a capacidade de expressar ideias, através de experiências significativas, é essencial para fechar negócios com os clientes. Esta abordagem estabelece então, as condições adequadas para que a inovação se desenvolva de forma a criar resultados consistentes. Aqui estão as suas 10 regras.

1. Conheça a si mesmo
Muitas organizações têm fixação pelos concorrentes, mas sabem pouco sobre seus pontos fortes internos. Sempre que realizamos análises estratégicas, descobrimos que as organizações que avaliam suas próprias capacidades com frequência, e são claras sobre suas fraquezas, tendem a estar mais bem posicionadas para lucrar com inovação. Isso ocorre porque sabem exatamente como utilizar os talentos e os recursos certos, com probabilidade de sucesso muito maior.

2. Transformar Selvas em Jardins
Muitas culturas evoluem como selvas, sem planos ou propósitos. Isso pode surpreender, mas muitas empresas não se preocupam em como sua cultura organizacional se forma ou se mantém, nem tentam contribuir para personalizá-la, para dar forma a uma cultura original, única. Estruturas de modelos são usados para setores de Recursos Humanos e para Centros de Lucros, mas poucos estão interessados em pô-los em prática. Muitas empresas têm organogramas que não refletem os reais tomadores de decisão, os que de fato detêm o poder. Nem tampouco identificam os emergentes grupos criativos que estão prosperando em seu meio. Em resumo, a maioria das organizações não é projetada para colaboração. Descobrimos que, quando os líderes se preocupam em cuidar da cultura de suas organizações, como um jardineiro, investem tempo para identificar os que são influentes, e implantam talentos certos nas áreas certas, normalmente têm maior impacto sobre a inovação.

3. Acreditar numa Causa
Paw Sar Ou foi inspirada por um propósito no qual acreditava. Tantas empresas têm declarações de visão e de missão, e assumem que a equipe simplesmente acreditará nelas. Infelizmente, a maioria dos funcionários são céticos, ou encontram algumas razões para se inserir nessas declarações. Logo, se você deseja inovação, precisa investir tempo para compartilhar suas convicções, elevar sua equipe e fazê-la tomar uma posição consciente. Porque se você não fizer isso, então merecerá o péssimo resultado que está recebendo desses colaboradores, e estará entregando um serviço abaixo das expectativas de seus clientes.

4. A Incerteza é Felicidade
Em cada ciclo eleitoral, a palavra-chave é mudança. E quando os autores tentam vender-lhe livros de negócios, eles falam em rupturas e quebra de paradigmas. Mas em todas as épocas, à medida em que surgem condições diferentes, mudanças e perturbações estão sempre presentes. Então, se as pessoas estão realmente interessadas em inovação, elas precisam habituar-se a abraçar a incerteza. Entretanto, muitas organizações se comportam como se o mundo operasse de acordo com o meteorologista – fosse previsível. Descobrimos que, quando os líderes são orientados a apreciar e até a desfrutar o desafio da mudança constante, então eles estarão melhor posicionados para ajudar os outros a ver com novos olhos, mesmo em momentos difíceis.

5. O Fator Humildade
Muitas organizações falam de humildade, mas poucas a praticam. Humildade para reconhecer que as ideias podem vir de outras pessoas, e aceitar que precisamos reavaliar constantemente nossa posição no mercado e no mundo. Esta é, talvez, a coisa mais difícil de implementar na maioria das organizações. E ainda, a falta de humildade de alguns pode ser uma razão pela qual tantas pessoas, que provavelmente conhecem a resposta para resolver um problema, já não falam. A noção tradicional de que o chefe ou o sênior sabe mais, ainda prevalece em nossas salas de reuniões, tornando-se uma barreira para a discussão da qualidade. Por isso, é comum ouvir durante workshops estratégicos: “sabemos disso desde sempre, mas ninguém tomou medidas”. Assim, as empresas devem considerar, seriamente, maneiras de redesenhar as práticas para criar espaço para a humildade.

6. Isso significa que…
Se as organizações querem que seus funcionários cuidem delas, então estas têm que mostrar que seus colaboradores significam algo para elas. Demasiados símbolos, declarações e planos estratégicos são adotados para mostrar que a gestão está empenhada em pô-los em prática. Porém, isso ocorre sem qualquer compartilhamento com a equipe. Isso afeta a credibilidade e diminui a boa vontade do pessoal em relação à Administração. Alguns CEOs perguntam, por que é tão difícil manter boas pessoas nos dias de hoje. Minha resposta é porque, muitas vezes, essas boas pessoas estão se perguntando por que deveriam se importar, se não sabem se alguém se importa com elas. Então, que a estratégia, o novo logotipo, produto ou rituais possam demonstrar que você, de fato, se importa com elas. Faça um esforço para participar e se envolver.

7. Design Relacional
Em geral as pessoas pensam que o design não serve a outra finalidade senão fazer as coisas parecerem mais agradáveis. Mas a definição de agradável ou de beleza é relativa. Em certas partes da Ásia, se você tem pele mais clara é considerado bonito. Mas a Oeste desse Continente, você pode se sentir deslocado. Ter pessoas na organização que entendam o verdadeiro papel do design é muito importante atualmente. As empresas precisam ter líderes/designers que entendam o papel do design em sua empresa, antes de trabalhar com designers externos. Esta é a chave para a concepção de experiências que serão relevantes para potencializar o valor da empresa.

8. Muitas formas de ver
Os silos tradicionais são cada vez mais irrelevantes, porque os desafios cresceram em complexidade. Assim, as empresas precisam ser capazes de olhar para as questões de diferentes perspectivas. As equipes precisam ir além de seus próprios departamentos de marketing, vendas, produtos e trabalhar em conjunto, a fim de desenvolver soluções saudáveis. Normalmente, em nosso esforço para redesenhar as experiências dos usuários, o maior desafio é fazer com que as pessoas vejam o valor do trabalho como um só, e manter esse esforço após sairmos dessas empresas.

9. A vontade de vencer
Várias organizações desistem da inovação após algum tempo, alegando falhas. Depois de investigar mais, descobrimos que muitas desistiram com demasiada facilidade pela falsa expectativa de resultados imediatos. Só que inovação não acontece subitamente, e requer liderança e compromisso sustentado. Assim, mesmo que haja muitas empresas trabalhando na mesma ideia, a perseverança poderá ser o fator decisivo.

10. Tecer juntos
Em última análise, uma empresa pode ser capaz de produzir um grande produto, mas ainda assim não conseguir vender, se não houver uma grande experiência do usuário. Muitos pensadores dão importância a grandes ideias e à criatividade, mas esta é realmente a parte mais fácil. O mais difícil é projetar um sistema totalmente novo para lucrar com uma ideia criativa, transformando-a em inovação. Desde a tomada de decisões até o relacionamento com fornecedores, o realinhamento de pessoal interno, a educação de clientes, tudo isso precisa unir-se numa experiência única e coordenada. Este é, talvez, o maior dilema enfrentado pelos inovadores, lidando com o processo, duro e mundano, de fazer tudo funcionar de forma coordenada.